“Criou-se uma percepção de que, depois da reforma da Previdência, tudo estará resolvido e poderemos envelhecer tranquilamente”, diz autor “Economia da longevidade – o envelhecimento populacional muito além da previdência” é uma obra que amplia e aprofunda o debate sobre o tema que vem mobilizando o país.

Seu autor, Jorge Felix, é jornalista e professor de empreendedorismo, economia e finanças para a gerontologia na USP.

O livro foi baseado em sua tese de doutorado, mas pode ser lido sem dificuldade pelo público em geral. O primeiro ponto abordado por Felix já causa desconforto.

Ele afirma que a discussão sobre a previdência vem sendo intencionalmente confinada à necessidade de solvência das contas do sistema previdenciário, para que não quebre.

Isso é verdade, mas não esgota a complexidade do tema, explica: “criou-se uma percepção de que, depois da reforma, tudo estará resolvido e poderemos envelhecer tranquilamente”.

No entanto, o contexto histórico da dinâmica demográfica ficou fora dessa narrativa.

Cito uma frase presente em muitas discussões sobre a longevidade: “países ricos ficaram ricos antes de envelhecer e os pobres, Brasil incluído, envelhecerão antes de ficar ricos”.

A tese foi replicada por publicações de diversos organismos internacionais, como o Banco Mundial.

Acontece que os países ricos começaram a envelhecer sob as bênçãos de um Estado de bem-estar social que buscava garantir os direitos de seus cidadãos.

Pelo menos durante três décadas, depois da 2a.

Guerra Mundial, forjou-se um capitalismo de construção, ou reconstrução, que previa um “seguro coletivo” para os indivíduos e acabou se traduzindo em maior distribuição de renda.

O mundo do trabalho contava com promoções regulares e estabilidade.

Para Jorge Felix, é como abrir a caixa preta da História, que desmonta a teoria de que primeiro é preciso que o bolo cresça para depois dividi-lo.

“Esses países cresceram enquanto proporcionavam uma rede de proteção social para os cidadãos”. Jorge Felix, autor do livro “Economia da longevidade – o envelhecimento populacional muito além da previdência” Divulgação: Décio Figueiredo Entretanto, o que se vê hoje é uma quebra do antigo pacto ou, como aponta o autor, a era do “capitalismo de desconstrução”.

No lugar do antigo seguro social, assistimos à ascensão do liberalismo, da ampliação do Estado mínimo, da desregulamentação financeira.

“Não é um fenômeno restrito ao Brasil, a rede de proteção social vem diminuindo em outros países”, avalia.

A longevidade também é desafio para as nações ricas, principalmente onde a desigualdade cresceu, como nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha.

Os britânicos vêm perdendo expectativa de vida: as mulheres passaram de de 87,1 para 86,2 anos; os homens, de 84,3 para 83,4 anos – um ano a menos para cada indivíduo.

O Brasil envelhece dentro desse quadro de capitalismo de desconstrução.

No livro, ressalta que a falta amparo à criança na fase pré-escolar e a dívida com a escravidão, jamais paga, comprometem a qualificação de mão de obra – o que vai gerar um impacto negativo na longevidade.

“O envelhecimento é diverso e está diretamente ligado à desigualdade.

Sou otimista ao constatar que vivemos mais que as gerações passadas, mas isso não significa que as pessoas vão envelhecer bem”, diz.

E acrescenta: “o capitalismo quer indivíduos produtivos.

Por isso utilizou crianças como mão de obra durante bastante tempo e demorou a absorver a infância como um grupo a ser protegido.

Agora, será preciso percorrer caminho semelhante em relação aos velhos”.

O autor enfatiza que o mercado de poupança para a aposentadoria é extremamente atraente para players internacionais, mas lembra que 73% dos brasileiros não têm qualquer capacidade de poupar.

Na sua opinião, vivemos hoje uma “corrida populacional”, na qual os países com maior habilidade para solucionar esse desafio estão aptos a manter ou alcançar um estágio satisfatório de desenvolvimento.

Para ele, a saída será apostar na economia da longevidade como um mercado transversal, e não de nicho, porque envolve uma ampla gama de indústrias e serviços.

O papel do setor público nesse debate é crucial, para estimular o engajamento das empresas.

Segundo Felix, é preciso “entrar na lógica capitalista e garantir que a economia da longevidade seja impulsionada”.